Aos 80 anos, Costanza Pascolato é aquele tipo de pessoa que dispensa apresentações. É fácil dizer que ela é editora de moda, autora, colunista e que angaria milhares de seguidores nas redes sociais. É também mãe, avó e mentora de uma geração inteira de profissionais que trabalham com moda hoje – de jornalistas à estilistas. Dizer que ela é a papisa da moda brasileira não é, de maneira nenhuma, exagero.

Com um currículo desses, foi a primeira pessoa que veio às nossas mentes quando decidimos descobrir “Como você vive a moda?”. E conversar com Costanza nos deu muito mais respostas que só a dessa questão (confessamos que poderíamos ficar dias só a ouvindo falar). Nosso bate-papo com ela, na íntegra, você confere a seguir.

O que a moda faz mais pelas pessoas além de vesti-las? O que a moda te traz além da roupa?

CP: Quando eu descobri que eu tinha de ter a minha personalidade, a primeira coisa a qual recorri foi a moda. Eu tenho 80 anos, e, naquela época, a gente não tinha muitas outras áreas para se expressar. Ainda adolescente, eu entendi que, tudo aquilo que vestisse, que usasse, seria o que me faria ser notada. Eu nunca quis ser igual aos outros, eu sempre quis ser independente.

Você fala muito sobre se ter uma "impressão digital de estilo". O que é isso e como encontrar?

CP: A primeira coisa que eu fiz para entender o meu estilo foi me olhar no espelho. E não olhar para dizer "Estou bem ou mal", porque isso depende do seu humor no dia. Quando eu digo olhar no espelho é no sentido de se conhecer e gostar de você mesma. Você precisa gostar de você mesma para entender o que fica melhor em você. E só você precisa gostar disso, não todo mundo.

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Essa identidade de estilo é algo fixo ou está sempre mudando?

CP: A questão do estilo, para mim, é uma fórmula: a combinação que eu acho que fica melhor, que eu me sinto mais segura, é o que eu fui repetindo ao longo dos anos. Claro que com transformações, porque eu, hoje, aos 80 anos, não sou a pessoa que era aos 50, 60 ou até 20 anos. Esse olhar tem de se atualizar e a moda hoje te oferece uma variedade de coisas com as quais você pode sim achar o que fica bem em você.

Se não existe certo e errado na moda, o que faz uma pessoa estar bem vestida?

CP: Mais do que bem vestido, enxergo como importante a identificação da própria pessoa com seu visual. Aquilo que você pensa, que você deseja, que você manifesta na sua vida têm de ter uma equivalência com a sua roupa. Hoje, eu consigo ler as pessoas pelo que elas vestem. E não precisa ser um visual para sair, pode ser algo do dia-a-dia mesmo.

Atualmente o que te inspira na moda?

CP: Eu acho muito bacana essa abertura, essa liberdade, essa transformação. É quase um apagar de fronteiras, não só de sexo e idade. É uma universalidade da moda, algo sem muitas regras. E a indústria, ao fornecer mais opções, é o que dá conta de acompanhar essas mudanças.

Você acredita que moda pode trazer felicidade? Você crê que a moda transformou a sua vida?

CP: A moda ajuda bastante, mas não é só moda. A moda não sei se transformou a minha vida, mas ela esteve presente em todos os momentos. Primeiro porque a minha família fundou uma indústria têxtil e eu acompanhei tudo desde o início, já que minha mãe me contava tudo o que acontecia lá. De um lado eu tinha essa informação industrial e, quando eu comecei a trabalhar, eu fui trabalhar em revistas, então tive contato com o lado jornalístico. E, mesmo antes disso, já me diziam que eu me vestia muito bem - hoje eu vejo minhas fotos e nem eu acredito que era eu (risos). A moda sempre me deu segurança. Mesmo quando eu fui envelhecendo, eu deveria estar cortando os pulsos porque estou envelhecendo? Não, eu fui mudando meu estilo e, junto com isso, mentalizando coisas boas, meditando, fazendo exercícios e comendo coisas saudáveis.

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Uma frase sua diz "Tudo é moda". Porque você diz isso e como você enxerga essa frase?

CP: Para mim, a moda nada mais é do que o retrato no espelho de um momento social e um retrato absolutamente verdadeiro. Cada época, teve a moda que representava aquele tempo. Moda é o lugar onde você entende o que está acontecendo. Eu acredito sinceramente nisso.

O que você acha que a moda de hoje diz sobre o que estamos vivendo?

CP: Eu vejo que hoje muito mais gente tem acesso à moda, por conta da moda acessível. A diversidade de estilos e modelagens é muito maior e isso facilita na hora de você descobrir e criar seu próprio estilo. Uma história interessante aconteceu comigo outro dia: eu fui com meu amigo Pedro Salles (Direto de Moda da Vogue Brasil) em uma loja da Riachuelo e nós começamos a experimentar roupas para esta campanha. Pegamos peças femininas, masculinas e até infantis e experimentamos todas, montando looks para mim que eram bem diferentes um do outro. Ali, dentro da loja, encontramos o que tinha a ver com a minha personalidade. E o Pedro disse "É só a gente saber o que quer que conseguimos tudo.". E isso para uma senhora de 80 anos. Quer melhor (risos)?

O que a Costanza de 20 anos atrás diria para a Costanza de hoje sobre moda?

CP: O mais sincero da minha parte é dizer "Mantenha-se fiel a você mesma". O dia que você se identificar com um estilo ou com vários, siga em frente deste jeito, você não precisa mais seguir todas as tendências. Você é você. O mercado de moda hoje permite que você mude dentro do seu próprio estilo e isso é sensacional.

O que você gostaria de dizer para terminarmos essa entrevista?

CP: Para mim, hoje, o importante é que cada pessoa se identifique dentro do seu próprio estilo. Uma vez que você sabe daquilo que você gosta - claro que experimentando e fazendo mudanças quando você quiser -, fique com isso, não continue sempre mudando. A individualização é o futuro: é a própria personalidade sendo valorizada e é também você fazer parte de um grupo quando muito jovem. Mas, depois disso, a individualização e aquilo com o que você se identifica aumenta o seu amor próprio - é isso que vai te dar uma segurança e te deixar à vontade frente à outras pessoas. A coisa que mais dá segurança é identificar o próprio estilo. Eu tenho certeza disso.